terça-feira, 11 de julho de 2017

“Para um Amanhã” (05/05/2017)

Quando me encontrar aqui neste sofá me perguntando como tudo aconteceu, muitos dos meus sonhos já serão verdade e a melancolia, que por hora mora, se tornará outra angústia que ainda não sei o gosto. Nada nessa vida é instantâneo, o que acontece é que quando estamos vivendo nossos planos não conseguimos reparar nas horas que passam e quando tudo se completa parece que foi rápido demais, como se tudo tivesse acontecido ontem. Basta olhar para o coração para entender isso. As solidões parecem ter durado muito mais do que as presenças, por mais que o calendário desminta. Envolvidos vivemos, sozinhos contamos os minutos que se arrastam pelo tempo. Por isso ao observar a chuva amiga da preguiça que escorre pelo vidro, quero me lembrar que este agora foi há muito tempo. Tenho certeza que anos nos separam e que a vida te trouxe mais do que posso imaginar. Foram sequências de aventuras, desafios, tristezas e uma felicidade perene. Talvez nada disso tenha levado ao lugar que por hora sonho. É provável que tenha mudado bastante. Mas tudo bem, não quero falar sobre sucesso ou fracasso, só quero te dar a perspectiva de tudo que passou, que cresceu, aprendeu, que foram anos bem vividos e que pode fazer tudo isso outra vez. Se tudo estagnou e nossas verdades se tornaram dúvidas, aproveite. Sente-se e olhe a chuva cair mais vezes. Aproveita para reparar nos anos que passaram correndo. Perceba enquanto é tempo o que realizou depois de mim. A vida tem diferentes belezas, o que precisamos reparar é se estamos em movimento ou parados, para então reconhecê-las. Saiba você que está tudo bem. 

Temos uma casa, um amor, uma família, um trabalho. Temos muitos sonhos e nenhuma certeza. Alguns dias é preciso um suspiro maior que outros. Há um pouco de vazio, a palavra não vem com tanta frequência e o futuro está embaralhado. Mas continuamos seguindo com a calma possível até achar o caminho que levará até você. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

terça-feira, 4 de julho de 2017

“Deixa estar” (04/05/2017)

Em alguns momentos você precisa deixar as coisas serem. Isso não tem nada a ver com derrotismo, com desistir, com aceitar fracassos, com conformismo ou inércia. É na verdade deixar a vida ao seu redor tomar forma, crescer, criar oportunidades, amadurecer e que você possa encontrar as saídas, os caminhos por onde seguir. Eu sei que se pode estar totalmente longe dos sonhos, do que queremos ser, do que queríamos para vida. Mas ela, a vida, também está longe do seu final, tem muita coisa para nos ensinar e mostrar que vão alterar totalmente a nossa perspectiva deste arredor. Por isso deixe as coisas serem. E enquanto isso, o que fazer? Viver. Aproveitar o que se tem, fazer o que se gosta. Ler um livro, ver um filme, cozinhar, jogar um videogame, sair, escrever. Viver seus dias, viver com as pessoas. E não colocar nessas atitudes a pressão do sucesso, da grandiosidade, como se fossem as grandes soluções dos nossos problemas. Não colocar no teu trabalho toda esperança de crescimento, não ficar almejando que seu freela se torne o grande ganha pão, não ficar esperando teu hobby, teu talento para as artes ou algo parecido se torne um viral da internet, que você seja descoberto. Isso tira totalmente a chance de aproveitar as coisas, de compreender os momentos, de saborear o que vida te trouxe. Deixe as coisas serem. Por último, talvez o mais difícil e amedrontador disso tudo seja entender que não há nada para ser feito. Nada. Não adianta bagunçar a rotina, inverter prioridades, lamentar o tempo perdido, se martirizar pela não realização do sonho. Haverá o tempo de agir, se mantenha preparado, será claro, líquido e certo. Até lá não há nada que possa ser feito que esteja nas suas mãos a não ser viver bem, em paz e manter teus sonhos vivos. Chegará o momento de ser grande. Por mais que te doa ou pareça que a vida está passando por seus olhos, na verdade é apenas o ponto de vista, o rio está seguindo sua direção e por mais que pareça incoerente é preciso deixar as coisas serem para que o caminho tome forma e possamos ver com mais clareza o mar. Não há culpa, não há pressa, não tem nada perdido, muito pelo contrário você acabou de se encontrar. Agora permita-se apenas ser. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

terça-feira, 27 de junho de 2017

“Quando” (26/04/2017)

Quando o Sol não vem
Teu sorriso me ilumina o dia
Quando a Chuva não vem
Teu colo esconde minhas lágrimas
Quando o sonho não vem
Teu abraço me sustenta
Quando a coragem não vem
Teu beijo me dá forças
Quando a vontade não vem
Tua palavra me traz esperanças
Quando me falta presença
Tua lembrança me preenche
Quando me falta inspiração
Tua alma me transborda
Quando me falta tempo
Teu amor me traz eternidade
Quando me faltam razões
Tua emoção me impulsiona
Quando me falta sentido
Teus dedos se entrelaçam com os meus
Quando não vem o que me falta
Você me completa

Só não sei o que sou meu bem
Quando você me falta
Quando você não vem

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 19 de junho de 2017

“Deserto” (20/04/2017)

Me fogem as palavras certas
Embaça o rosto no espelho
Sonhos se confundem com bobagens
Imagino enquanto não sei se vivo

Olhei para fora, dentro e para cima
Mas tudo continua em silêncio
A espera desequilibra a esperança
A fé fica sem lugar

Por que é tão difícil saber?
É apenas uma única escolha
O que me falta fazer?
Para que a alma siga em frente

Nunca conheci um lugar tão vazio
Nenhuma gota de vontade
Nenhuma ideia vinga
Vencido por uma imensidão solitária

Eu caminho pelos versos
Para largar um pouco dos pesos
Suspirar sobre algumas verdades
Manter a insanidade de não saber desistir

Ass: Danilo Mendonça Martinho

domingo, 11 de junho de 2017

“Se tudo passa” (24/03/2017)

Por que entre todas as coisas que poderíamos usar de referência nessa vida fomos escolher logo o tempo? Uma coisa que contamos sem saber o fim e com medo que acabe. Algo que te persegue pelos dias e noites, que te empurra ladeira abaixo, controla nossos passos, nossos afazeres, exige presença, dispensa motivos. Mas se você colocar reparo no relógio ele continua numa calma sorrateira. Se acompanhar pelo Sol então as sombras se mexem aos milímetros. Pode demorar até mais de hora para percebemos a mudança. O fato é que ele não se importa com nossa urgência, não entra na nossa pilha, ele apenas passa como parte da paisagem, fiel a sua natureza. 

A pressa está em nós, plantada em nosso âmago desde pequenos. Cada dia mais cercados. Na parede, no pulso, na TV, no celular, na rua. Sempre temos um tempo, nunca estamos em tempo e ficamos a espera de um tempo que possa parar. Somos inventores da maior parte de nossas mazelas. Agarrados a tudo que nos aflige, reféns de nossos medos, conformados com nossa rotina. Mas que grande tolice foi começar a contar o tempo. Do que importa a duração das coisas se pudermos vivê-las com alguma alegria? 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

sexta-feira, 2 de junho de 2017

“30º” (15/02/2017)

O calor que toca a pele
Apoia minha alma
Na frágil desculpa
Que o tempo se tornou escasso

Por mais que se dividam os dias
A inércia equilibra a balança
Nessa versão do mesmo tema
Culpa disfarçada de impossibilidade

São todas chances do mundo
Mas nenhuma escolha
Nenhuma paixão que leve adiante
Apenas repetindo para não desaparecer

O sol não me derrete
A esperança não esmaece
Tortura-me com a verdade
Sou protagonista da minha solidão

Falta-me pequenas coragens
Abandonar, admitir e acreditar
É a idade do cansaço
Ou cansaço da ideia

A noite ainda guarda o bafo
Um toque final no descompasso
Os planos de um novo amanhã
A certeza velada que não o será

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quarta-feira, 15 de março de 2017

“Hamletiniano” (09/03/2017)

Viver ou não viver? É a tradução mais sincera dessa pergunta amedrontadora que por um instante supõe que a existência dessa consciência passageira esteja sujeita a uma escolha tão simples como abrir os olhos pela manhã. 

Na minha mão em inglês arcaico vejo pela primeira vez o original que já não o é. Carregado de séculos de história e versões. Determinado e resignificado. São tantas suas possibilidades que reviso as minhas intenções. Mas o desejo é tentar traduzi-lo com meu inglês sem escola. Traduzi-lo em uma sincera e abstrata poesia. 

Traduzir palavras tão distantes de sua verdade é fazê-las se perderem de uma vez, libertas de sentido. Serão vítimas do meu contexto, reais e deturpadas, sem mais chances de defender suas origens, a mercê do tempo e seus passageiros. Traduzir essas palavras é quase como negá-las a pureza que lhe resta, é negar sua própria existência. 

Com um indiferente perdão poético o faço:

Viver ou não viver? Apavorante questão 
É mais nobre sofrer do que desistir 
Abraçar as mazelas e dores de nossa sorte 
Ou com as próprias mãos enfrentar a maré 
E ao enfrentar, encerrar em si o sentimento? 
Morrer ou dormir, não importa mais. 
Em um sonho encontrar nosso fim 
O coração partido, e as milhares de cicatrizes 
Que a carne deixa de herança para alma. 
É a chama da qual desejamos e somos devotos que nos consome. 
Morrer ou dormir, dormir! 
Pela chance de sonhar: Sim, essa é a saída. 
Pois dormindo não vivemos e o que podemos sonhar 
Quando desconectados dos limites do corpo 
Devem nos trazer alento 
Um novo respeito as calamidades dessa vida tão longa 
Para aqueles que vestem suas verdades e encaram sua rotina. 
O poder corrompe, o orgulho cai 
O Amor é negligenciado e tarda o perdão 
O cansaço do trabalho e dos espinhos 
Esse paciente mérito desmerecido 
Que poderia em seu sossego 
De mãos limpas nos tirar a vida. 
Quem pensaria em aguentar? 
Viver sob suor e lágrimas 
Em vez de encarar o desconhecido 
O silêncio que nenhuma palavra quebrou. 
O desejo está em pedaços 
E nos faz aguentar estes pesos 
Em vez de encarar o precipício dos nossos sonhos. 
A consciência do impossível deixa nossos pés no chão 
E portanto as primitivas cores do olhar 
Se diluem em um pensamento cinzento 
E a aventura à flor da pele se resguarda 
Suas correntezas se confundem 
Se perdem em nome do nada. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

*Inspirado no texto de Hamlet, Shakespeare. E no espetáculo "Hamlet, processo de revelação", dirigido por Adriano e Fernando Guimarães, interpretado por Emanuel Aragão.