quinta-feira, 30 de agosto de 2018

“Paladar” (28/08/2018)

Eu me apego a teus detalhes
Seus olhos sorriem
Sua respiração pausada
O mundo é vertigem
Quando estamos tão perto
Você quer sempre mais
A mão se precipita sem encostar
O universo na ponta do seu nariz
Tua pele envolve tuas formas
Como o embrulho de um presente
Então morde teus lábios
Com desejo ou com saudade
A boca enche d'água
Com o fruto fosse novamente proibido
E no último momento de consciência
Vejo teu coração liberto
Daqui em diante é só entrega

Ass: Danilo Mendonça Martinho

terça-feira, 28 de agosto de 2018

“Despertar” (17/08/2018)

Todo dia quando acordo
O celular inteligentemente me sugere

Adiar

Mas o que posso esperar de um dia
Onde o primeiro compromisso que assumo
É deixar para depois

Na cama cabe qualquer tempo e espaço
Só que e a minha vida?
Vai me esperar?

A verdade é uma fuga
Nove minutos para escapar
Assusta não saber do quê

O que vale evitar?
Podemos realmente não sentir?

Os olhos não vão longe
A consciência me supera

É dia

Minha única chance é o coração
Para resgatar o que esqueci
Para que a luta não seja em vão

O depois é a esperança
De nunca chegar


A hora

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Compasso” (02/08/2018)

O alarme toca quando for hora
O computador entre em espera
O carro avisa da gasolina

Alguém vai marcar um encontro
Alguém vai me chamar um dia
Alguém vai reconhecer a verdade

Amanhã eu começo de novo
Amanhã o tempo vai estar melhor
Amanhã há de dar certo

Eu acredito que ele já sabia
Eu acredito que ela vai vir
Eu acredito no que disseram

Até onde eu sei ele é bom
Até onde sei ele tentou
Até onde sei ainda é possível

Afinal, a vida é esperança ou espera?


Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Martírio




“Martírio” (30/07/2018)

Pegou a faca
Provavelmente a última
Esquentou o pão
Provavelmente amanhecido
Tomou o chá
Provavelmente sem açúcar
Vestiu o paletó
Provavelmente com o bolso furado
Saiu de casa
Provavelmente sem guarda-chuva
Chegou no trabalho
Provavelmente atrasado
Cumpriu o expediente
Provavelmente sem vontade
Parou no bar
Provavelmente sozinho
Voltou caminhando
Provavelmente no frio
Tomou banho
Provavelmente chorando
Assistiu TV
Provavelmente sem sorrir
Deitou-se
Provavelmente sem sono
Pensou no seu dia
Provavelmente....irá repeti-lo

Ass: Danilo Mendonça Martinho

sábado, 21 de julho de 2018

Insólito

Tem coisa que não tem jeito. Não sai da garganta, da cabeça, da alma. É preciso tempestade, algo radical para aliviar o peso. Tem muitos dias que lutamos com a maré, mas em alguns é preciso se deixar levar. Abrir mão, se despir, se livrar. Descarregue.

“Insólito” (21/07/2018)

Tá precisando chover
Tá precisando lavar a alma
Arrastar sentimento atolado
Desobstruir a garganta
Encharcar as ideias

Quero vendaval para carregar tristeza
Raios para destruir amarras
Granizo para ferir mentiras
Escuridão para esquecer verdades

A terra tá seca de sonhos
O ar pesado de mesquinharias
Os olhos ardem do cansaço
As folhas despedaçam junto da alegria
O suspiro virou tosse amarga

Tá precisando chover
E nem precisa ser poesia
Pode ser abraço no fim de tarde
Carta de amor perdido
Rosquinhas fritas da vovó
Qualquer coisa que dê vida

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Relato de uma dor

Tem momentos do passado que sempre voltam para nossa consciência. Tirando de lado a ideia de arrependimentos ou nostalgias, vejo que são lições que voltam para nós. Aqui, entre muitos aprendizados que tive, acredito ter um que vale para todas áreas da nossa vida e para muitos momentos turbulentos que estamos vivendo. Os dois lados da moeda. Fui magoado muitas vezes, mas só quando magoei compreendi a situação. Acredito que muitas vezes olhamos apenas a nossa perspectiva, as nossas crenças, as nossas verdades, os nossos sentimentos. Mas e o outro? Nossa como é difícil pensar no outro quando este nos prejudica tanto, nos faz doer, ou discordam e refutam nossos princípios. Mas é um exercício que com o tempo nos faz pessoas melhores. Como diz a poesia, algumas vezes uma mágoa, um adeus, se fazem necessários para chegar até a paz, até a compreensão. As lições da vida são as difíceis.

“Relato de uma dor” (08/06/2018)

Eu não venho aqui
Lhe tirar nenhuma mágoa
Não é meu direito
Nem venho porque te devo
Falo no mesmo egoísmo
De quando te deixei
Falo pois faltei com a sinceridade
A mesma que defendo em praça pública
Venho pensando apenas em mim
Na paz da minha alma
Na absolvição do meu coração

Outrem era quem reclamava do amor
Tanto que quase ignorei
Quando estava a mercê em minha porta
Mergulhei de cabeça
Cada meu bem, veio do coração
Fui inteiro, fui entregue
E como em todo erro
Fui longe demais
O amor de um não sustenta dois
E terminei o que não podia começar
Arrastei tudo para minha solidão
Fui causa e não consequência
E traí toda minha consciência
Quando fui incapaz da verdade

Se tiver perdão foi em vão
Se tiver silêncio não sobrou nada
Se tiver resposta mereço a dor
Magoar é simplesmente terrível
E pode ser o único caminho para paz

Ass: Danilo Mendonça Martinho