quinta-feira, 8 de agosto de 2013

“Acuso”

Eu sinto que meu sonhar é extremamente perigoso. Sonhar não é acreditar, ele lhe dá o futuro como certo. A conquista pode se afastar da realidade em mais maneiras que a palavra pode se tornar silêncio. Aqui, do outro lado do sonho frustrado, nosso coração até se une com a razão para enxergar além da dor. O motivo da queda pode parecer obscuro, mas geralmente remete ao espírito com que entrou na batalha. É difícil dizer, mas os ceticismos me levaram mais longe, o cru, o inegável, os olhos sempre abertos. Não nego o sorriso que vem com o idealizado mundo de amanhã, mas que não passe disso. O vício da esperança pode se tornar uma expectativa real demais. Incapaz de permanecer no agora, fiquei desarmado na luta. Todo mundo sente o golpe. Nada é insignificante para alma. Não posso olhar para o lado, fui eu. Desvirtuei a fé, o desejo e a realidade sem encontrar saída e a última me trouxe de volta em uma única palavra. E o mesmo sonho te faz se sentir pouco, ínfimo, aquém. É perigoso sonhar longe do travesseiro. Colocar sentimentos antes dos fatos. Todo sentimento pode virar dor. Fui ridículo ao imaginar acima, melhor do que a chance, e essa me fechou a porta. Pois agora é meu sonho que vai aguardar, a realidade é feita de pedras sobre pedras e eu ainda tenho muito o que levantar aqui dentro.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

“A última estação” (25/07/2013)

Que frio é esse que chega até os ossos. Logo eu que me armei contra as injúrias, levantei muralhas contra as mágoas, usei as palavras como escudo da alma serei acometido pela precariedade do corpo? Estarei a mercê de um bruto inverno que desconsidera minha existência e vem sobrepor o mundo com outro destino, outra realidade? E todo caminho para enobrecer a vida, todos cavalheirismos, toda educação, conquistas, imagem social, onde ficarão se não apenas isoladas neste sótão olhando pela janela em dúvida se pedem ajuda ou perdão. Se o tempo é assim escasso que valor poderia inserir neste contexto que ainda valesse a procura. Divago talvez tarde demais para fazer qualquer bem, mas sempre há tempo de revoltar-se. Já que de nada adiantou manter o espírito puro da tradicional selvageria dos sentimentos humanos, quero antes de tudo e do mais nada, renunciar-me. Há muito adio tal decisão, mas não mais preciso desta ilusão construída pelo seu olhar, muito menos de ideais que não me pertencem. Terminarei neste canto de cômodo como aqui cheguei, desnudo de princípios, de planos e de certezas. Sou natural como a estação que me bate a porta, com ciclo de vida, habitat e alimentação definida. Tudo que já pensei desconsidera essa minha essência. Fazer, construir, falar, rir, são passatempos capazes de nos distrair de nosso propósito. Não deixei filho algum, não perpetuarei nome, nem espécie. Agora me vejo indeciso se algumas dessas duas coisas me entristece. Todo animal tem um bando, todo bando tem seu inútil, por que não sê-lo? Inverno canalha me pondo contra a parede, vamos, apague minha lareira, encha de neve a minha porta, minha loucura está aposta para que possa levar tudo menos quem sou, a você não devo nada além do corpo, aos outros nem mesmo isso. Então vamos ficar neste acordo de cavalheiros, você leva o corpo que restou, sem custo, e eles levam tudo aquilo que já não sou, abdiquei ser, e me deixam a olhar o sol, a chuva e a neve nesta janela que escolhi para eternidade. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 25 de julho de 2013

“Dois”

O sol nasce por trás de outro corpo
O sorriso ainda é um resquício do ontem
A memória de ter deitado ao seu lado

O cheiro da casa se mistura
Um pão na chapa outro mergulhado no leite
As nossas desavenças são assim em detalhes

Meus quadros enfeitam a sala
Teus livros ganham a prateleira
Nós construímos este lar

É a escolha do programa de TV
Pensar no que fazer para janta
Rotinas que precisam da companhia certa

O silêncio que não desespera
O colo que sempre conforta
Somos portos de nossas almas

Tudo que faz disso mundano
Tudo que faz disso único
É tudo que quero para sempre

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 18 de julho de 2013

“Intransigente”

Não há apelo ao coração
Argumento, conselho, aviso
O próprio corpo desiste
Olhos cansados de lágrimas
A razão mergulhada na emoção
Ninguém pede, mas todos querem
E ele ama sem restrições

Sentir é natural
A questão são as possibilidades
Intensidade, desejo, caráter
Tudo precisa se encontrar
Ou ao menos a disposição para mudar
Todos tem seus limites
Quem pertence as suas fronteiras?

Ninguém precisa de pressa
Certezas são altamente voláteis
O orgulho é uma armadilha
É preciso saber abrir mão
Reconhecer um sorriso aberto
E não discutir com o coração

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 11 de julho de 2013

“Ensaio sobre o silêncio”

Há um grande desrespeito pelo silêncio. Por certas pessoas não passa nem um respiro. Existem presenças que só se justificam com a fala, não nego. Mas até estes pequenos incômodos merecem seu espaço. Uma conversa é tão boa quanto um suspiro. Fazemos do silêncio um estranho como se não bastasse uma companhia, olhares, sorrisos ou mesmo nada disso. O simples acaso de dois conhecidos que seguem para o mesmo destino ou dividem uma refeição. Sinto falta, sinto-me perturbado pelas constantes interrupções deste momento de reflexão. Até eu mesmo me vejo influenciado por essa tendência, que companhia precisa de palavras. Fujo do olhar, mexo a mão, olho para os céus como se precisasse urgentemente fugir dali. O que está ao nosso lado é assim tão diferente, tão amedrontador? Fico a pensar o que será que fez de nossa alma assim tão assustada. Somos tão precários, tão imaturos. Incapazes de lidar com o silêncio, imagina cuidar de um mundo. O mais breve som da natureza ou respiro da vida passa simplesmente despercebido. Há tanto ao nosso redor para conhecer, tanto, que qualquer dia desses você deveria não falar e ouvir também. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 4 de julho de 2013

“Descalço”

É difícil andar a pé. Tem concreto, tem terra, tem cascalho, tem espinho. A ferida sempre aberta de quem insiste que o melhor passo ainda é o próximo. Ser feliz é completar-se a cada dia. Mas para isso é preciso deixar o rastro. As marcas de uma sobrevivência muitas vezes questionável. Em busca de um horizonte muitas vezes utópico. Não vejo ninguém diminuir a velocidade, nem mesmo desviar do caminho. Todos querem suas promessas. O sentimento nasce de uma forma tão natural que é impossível demovê-lo por fora. Tudo que nasce dentro, lá perece, ao seu próprio momento. A razão é apenas um conselho. É admirável o ser humano, mais do que pela sua capacidade de pensar, mas pela escolha de abandono do mesmo. Sofre e sorri. Apanha e abre os braços. Magoa e ama. A alma tem bem menos extremos do que parece. Na convergência de ser um, a mistura nunca sai igual. Só permanece o desejo, o sonho, este gosto de vida que todos queremos encontrar. Vamos longe, vamos fundo até o dia de não precisar mais voltar. O enfim descanso para nossos pés. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 27 de junho de 2013

“Não será amanhã”

A fumaça abaixa e fico no aguardo do nascer da aurora dos nossos tempos. Meus olhos já há muito tempo céticos talvez não reconheçam um raio de esperança. Não sofremos por um governo. Não sofremos pelo conservadorismo religioso. Não sofremos por uma economia precária. Não sofremos por um estado de miséria. Não sofremos por uma guerra. Somos mais livres do que poderíamos imaginar pedir. Mas sofremos por causa de um sistema social falido, corrupto, profundo e centenário. Da mais baixa classe social, do rincão mais perdido de terra neste país até a maior metrópole e o mais alto escalão do governo, estamos impregnados com este gene maldito do “jeitinho”, do deixa quieto, do lave minha mão que eu lavo a sua, da vista grossa, do interesse próprio, do procurar vantagem, do malandro, do passar a mão na cabeça, do passar todo mundo para trás. O DNA brasileiro não mudou em uma noite. Mas há uma chance, que nas frestas deste mundo, esta nação tenha encontrado outros pares para criar seus filhos. Quem sabe se daqui em diante possamos começar a apagar este traço contínuo da nossa história. A mudança é muito mais que interna. Sei que na verdade não verei nascer esta aurora. Nosso tempo será de quebra, choque, saturação e muito cansaço. Descobriremos o limite de todos os nossos erros e negligências. Uma época de decepções, amarguras e duras verdades. É preciso desfazer este brasileiro que criamos. Um a um se for o caso. Acredito em um dia onde todo ceticismo ficará para trás e poderemos ver um verdadeiro novo país. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho